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Entrevista: Bruno Veiga e os grafismos de Burle Marx

Há 30 anos, Bruno Veiga iniciava sua carreira de fotógrafo no jornal O Globo. Apesar de ter passado pela faculdade de Economia na UFRJ e Cinema na UFF, ele largou os dois cursos para mergulhar de cabeça na fotografia. Autodidata, ele teve a sorte de começar trabalhando com grandes nome como Anibal Philot, Orlando Brito, Rogério Reis, Claus Meyer, Alexandre Santanna, Custódio Coimbra, entre outros. Ao completar três décadas de fotografia, ele lança mais um livro de fotos: "Pedras Portuguesas".

Com texto da curadora Daniela Name, a publicação traz um recorte aéreo das calçadas da Avenida Atlântica e apresenta 150 imagens de diferentes ângulos, formas e curvas que revelam a dimensão e a riqueza do trabalho de Burle Marx. Para conseguir ângulos exclusivos, o fotógrafo precisou subir em pontos estratégicos de hotéis e edifícios residenciais da orla. O resultado é um trabalho autoral, que revela algo que está cotidianamente aos pés dos cariocas, mesmo que não seja notado por todos.

Conversamos com Bruno sobre sua trajetória e essa paixão pela obra de Burle Marx que cobre a Avenida Atlântica e que o fotógrafo define como "a maior obra de arte a céu aberto do mundo". O fotógrafo é representado pela Galeria da Gávea e seu livro está sendo lançado pela Réptil Editora.

- Como foi sua passagem da imagem mais literal do fotojornalismo para a foto artística?
Foi natural. Já na época dos jornais e revistas, eu sempre tentei publicar ensaios mais fechados numa só história. Aos poucos começei a fazer livros e ao mesmo tempo, sempre trabalhei com dança, teatro, ópera, etc. Aos poucos fui sendo procurado por pessoas interessadas em adquirir meus trabalhos.

- Muitas das suas obras tem o Rio de Janeiro como referência. Fale da sua relação com a cidade - e também da série "Subúrbio".
Sou carioca da gema. Pensar as grandes metrópoles tendo uma questão para a fotografia contemporânea. Meus trabalhos estão inseridos nesta tendência.

- Como foi o primeiro inventário fotográfico que você participou sobre as pedras portuguesas do Rio?
Em 2007, fui convidado pela arquiteta Iolanda Teixeira para fazer um livro sobre o assunto. Na época, eu morava na Av. Atlântica e já me intrigava com a riqueza e as dimensões do trabalho de Burle Marx. Mas naquele livro o objetivo era um inventário das calçadas cariocas. Desde então, vim sonhando em realizar um trabalho apenas com Copacabana.

- E como este trabalho evoluiu para as fotos dos grafismos do Burle Marx?
É irresistível. Como tudo que é realmente genial, o trabalhos de Burle é simples. Faço recortes que mostram como a obra é ampla, pois dentro dela achamos outras obras. É infinito, posso ficar anos fotografando e sempre vou achar sugestões de Burle Marx para novos enquadramentos, novas leituras que ele generosamente nos oferece neste trabalho. Esse trabalho de Burle Marx merece ser dimensionado e visto pelo grande público, andamos sobre ele mas não percebemos sua amplitude artística. Somente do alto isso é possível. Fora isso, ele é uma referência mundial em intervenções urbanas bem sucedidas, além de ser talvez a maior obra de arte a céu aberto do mundo.

- Como foi o processo de pesquisa e execução dessas imagens? Foram feitas quantas fotos ao todo?
Desde 2007 pesquiso o assunto. Mas neste novo livro tivemos tempo para conseguir autorizações em muitas residências e hotéis da orla. Fiz mais de 3000 imagens e selecionamos 150 para o livro.

- E depois para a edição do livro, como foi realizada a curadoria? Fale um pouco também das trocas com a Daniela Name, que escreveu o texto crítico do livro.
A edição foi feita por mim e pela editora Luíza Figueira de Melo. Daniela Name foi uma parceira fundamental ao conseguir explicitar em seu texto as importância do trabalho de Burle, sua relação com a cidade e a leitura que fiz deste trabalho. O texto de Daniela é fundamental para compreensão do que trato neste livro.

- Como você vê a relação (talvez de amor e ódio?) do carioca com as pedras portuguesas?
Respondo com uma pergunta: vamos concretar a Av. Atlântica? As pedras, além de trazer uma identidade visual para nossa cidade e para o Brasil, também deixam o solo permeável. Olhem as inundações em SP. O concreto não é a solução.

- Você já foi em Lisboa, os desenhos de pedras de lá são muito diferentes dos daqui?
São espetaculares. Eles são os mestres nessa arte e a difundiram pelo mundo. Mas Burle foi o discípulo que superou os mestres.

- Quais outras obras do Burle Marx você admira?
Os jardins. Pretendo fazer um outro livro com fotografias aéreas que dêem uma dimensão ao jardins, da mesma forma como estamos buscando no livro "Pedras Portuguesas".

- Qual seu próximo projeto?
Estou tocando duas novas idéias sobre a relação da imagem com a política, assunto que me apaixona, especialmente no momento atual em nosso país.