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Entrevistas

Os elementos azuis de Suzana Queiroga

A artista plástica Suzana Queiroga está com duas exposições individuais na cidade. A primeira, "Olhos D'Água", ocupa o Museu de Arte Contemporânea de Niterói com uma grande escultura inflável azul (que foi doada à instituição como parte do 5º Prêmio de Artes Marcantonio Vilaça), além de séries de desenhos e uma pintura. E uma segunda, "Sobre Ilhas e Nuvens", em exibição na galeria Artur Fidalgo, em Copacabana. Em comum, questões que a artista vem pesquisando há alguns anos como fluxos, sistemas, principalmente o da água, com desdobramentos para a paisagem e o mar. Azul continua sendo uma cor primordial em sua obra que, traz muito de sua história pessoal nos últimos trabalhos.

Como é montar duas exposições tão especiais em locais tão diferentes como o MAC de Niterói e a Galeria Artur Fidalgo?
É um processo intenso. Eu vejo as duas exposições muito conectadas. Tenho trabalhado há um tempo no projeto do MAC e ele tem uma relação muito forte com a minha biografia e questões de família. Então, todo o processo no qual eu venho mergulhando literalmente, nessa água, nesse oceano todo que está imageticamente no trabalho, tem uma carga simbólica muito grande. Então, as duas montagens foram muito intensas, de ter que tomar fôlego para conseguir dar conta.é um trabalho que gera uma espécie de marco na minha vida. A individual do MAC vem do Prêmio Marcantonio Vilaça, que foi de aquisição. É um trabalho que eu fiz para o museu, que tem uma relação geográfica com o acidente em que meu pai morreu, na Baía de Guanabara. Está bem em frente ao aeroporto Santos Dummont, então ele é o site perfeito para esse trabalho. E eu trouxe a questão do oceano para dentro do museu que está na beira do mar. Então é uma obra de grande fôlego na questão da estrutura que eu montei.

Fale um pouco do processo de criação dessa instalação no MAC.
É um grande inflável suspenso. Toda a elaboração desse projeto, não só a partir da elaboração do conceito dele, mas chegar à soluções tecnicamente necessárias para poder suspender aquilo e ter aquelas formas que eu queria. Só essa escultura de ar já foi bastante complicado. E tudo isso circundado por aquele universo todo que eu tenho trabalhado: a nuvem, o ar e o mar.

A individual “Sobre Ilhas e Nuvens”, na galeria Artur Fidalgo já é mais voltada para o céu e o mar...
Aqui são ilhas e nuvens. Esse grande espaço natural envolvendo o céu, a paisagem e o ar, essas grandes coisas que circundam todos nós, ele é sempre relacionado às nuvens. Assim como as ilhas são apontamentos da terra no meio do oceano, aquelas erupções, as nuvens são um apontamento da água no meio do céu. Porque a nuvem, na verdade, é um jeito que a água deu pra voar. Eu vejo as nuvens e as ilhas como elementos apartados de sua origem. A ilha está apartada do continente, então ela tem esse isolamento, essa solidão e é circundada por um grande azul. E a nuvem saiu voando e também está relacionada a um oceano de azul, aí já o céu. Então eu vejo, simbolicamente, as duas coisas muito parecidas, embora materialmente não sejam, cada um está em um plano.

Como foi a seleção dessas obras?
Aqui eu trouxe mais essa relação com o fluxo da paisagem, do tempo e vendo a conexão desses elementos simbólicos com os sistemas. Porque toda essa minha relação com a ideia da nuvem, dessa circularidade da água através do espaço do céu, depois o retorno dela ao próprio oceano, esse sistema que a água tem também me interessa. Essa eterna mutação e mudanças de estados, mas é uma mesma água que permanece. A água do mundo é a mesma e ela só transita. A ideia dos fluxos, dos sistemas, que deu origem a tudo isso que eu tenho feito, ela vem muito ligada à minha pesquisa sobre cidades, mapeamentos, e que me levou a fazer vários trabalhos a partir de cartografias. Trabalhos pensando no traçado cartográfico, urbano, como uma construção de fluxos, porque, na verdade, o mapa é a representação no plano, no papel, em uma superfície, de um sistema que é dinâmico e em permanente movimento. Ele não é estático, ele é apenas uma radiografia de um sistema que tem um movimento constante. E ele mesmo mutante. As coisas mudam constantemente de lugar, se abrem e fecham, nesse grande sistema que é a cidade.