ArtRio

Entrevistas

Uma conversa com Ernesto Neto

O artista Ernesto Neto circulou pelo Píer Mauá durante toda a ArtRio, além de ter ficado no stand das galerias que o representam, A Gentil Carioca (RJ) e a Fortes Vilaça (SP). Na Fortes, apresentou nos três primeiros dias de feira uma nova escultura estruturada, que joga com o equilíbrio entre tensão e repouso, peso e leveza. O artista falou também de seus próximos trabalhos (ou “aventuras”), as exposições deste ano (a mais importante delas que vai relacionar sua obra à de Hans Haacke), sobre a sabedoria do povo indígena da tribo Huni-Kuin e da falha brasileira de ainda privilegiar a Europa e esquecer da riqueza da própria cultura misturada e única. Confira o bate-papo a seguir!

- Esse trabalho que está no stand da Fortes Vilaça chama atenção de quem passa. Encontramos as pessoas observando, tentando tirar uma foto que possa capturar um pouco da leveza e da tensão, surpreendidas. Fale um pouco desse trabalho.
Ernesto Neto - Só consegui dar o título ontem quando abriu a feira! O trabalho se chama "Anemonamor! Anemonamor", na verdade, é um estudo para a exposição “Gratitude” que fiz em Aspen, no mês passado. O pessoal da Fortes ficou encantando e trouxe. Tenho certa paixão por anêmonas desde os meus primeiros trabalhos das bolinhas de chumbo com meias elásticas, o “peso”, o “prumo” e o “passo”. Aqui, neste trabalho, existe também o espírito da medusa e de uma flor cheia de tentáculos, além da questão da gravidade e dessa estrutura gerando um espaço interno de suspensão. Agora vou fazer outro trabalho chamado "anemonaflor"! Estou louco para começar!

- E você vai fazer a "anemonaflor" para uma exposição?
Ernesto Neto - Vou fazer pra mim primeiro. Tenho tido muito essa vontade, porque eu trabalho tanto, tenho uma agenda tão cheia que acabo trabalhando muito em função de exposições… Por outro lado, essas exposições, dentro da minha história, acabaram abrindo espaço para eu desenvolver o meu trabalho. É quase como se meu atelier tivesse sido as exposições e a partir delas eu desenvolvi uma série de trabalhos. Mas eu também estou muito afim de fazer os trabalhos do meu coração, assim como era antigamente, para voltar esse universo do atelier.

- Mesmo que agora você se dê a chance de criar sem preestabelecer para qual exposição a obra irá no mundo, com certeza sempre seu trabalho terá um lindo destino…
Ernesto Neto - Sempre tem. Eu sempre fiz escultura aventura, é um conceito que eu gosto muito. Um amigo me falou que a palavra aventura vem do italiano e que quando os meninos viravam jovens os pais mandavam viajar pra que virassem homens. Quando eles chegavam numa bifurcação, eles soltavam uma pena ao vento e dependo do lado que a pena fosse, eles iriam atrás. Por isso que é aventura, vem de vento. Escultura-aventura para mim são essas coisas grandes, loucas, que usam esses espaços inesperados. E eu estou afim de fazer aventurinhas, que surgem desse espaço interno do coração mesmo pra trazer o espírito mais pessoal, em paralelo com as exposições, é claro, eu gosto disso.

- Quais são suas próximas exposições este ano?
Ernesto Neto - Estou mandando um trabalho que estava em Brasília para o MOT, o Museu de Arte Contemporânea de Tóquio, no Japão, onde já expus duas vezes. A diretora do museu é Yuko Hasegawa, quem fez a curadoria da última Bienal de Charjah (vizinha a Dubai, nos Emirados Árabes Unidos). O trabalho é um túnel-serpente chamado “Rio Jibóia”. Tenho uma abertura em Dubai e uma exposição importante e grande onde vão relacionar o meu trabalho ao de Hans Haacke, em um museu em uma cidadezinha no interior em frente ao rio Reno, com uma montanha atrás cheio de árvore, um lugar lindo… Vou levar alguns amigos índios da tribo Huni-Kuin do Acre para fazer uma cerimônia lá também.

ArtRio - Você tem participado de encontros com os índios da tribo Huni-Kuin?
Ernesto Neto - Eu estou aprendendo muito com os Huni-Kuin. Temos muito para aprender com os índios, em especial com os Huni-Kuin. Eles têm um conhecimento profundo da natureza, é uma compreensão espiritual e científica, porque eles são grandes botânicos. Eles conhecem as plantas, sabem para que as plantas servem. Eu estou muito feliz com eles. É um mundo encantado mesmo, espiritual. O espírito está na terra, nas plantas, nos bichos. Eu sempre acreditei nisso. O mundo espiritual está lá no céu, mas está muito mais aqui que lá, lá está mais longe, aqui está pertinho, dá para sentir o mundo espiritual com mais energia, mais positividade.

- O livro “Una Isi Kayawa” que reúne o conhecimento das plantas e as práticas medicinais dos Huni-Kuin e foi lançado no mês passado também nos faz lembrar desse conhecimento tradicional e medicinal que nunca chega na academia, certo?
Ernesto Neto - A academia brasileira e o Brasil tem essa infelicidade de achar que a única coisa boa e importante é o que vem da Europa e não percebeu ainda que o mundo é muito maior que a Europa. Uma vez eu estava lendo um texto do Katsuo Suzuki de uma exposição que participei chamada “Brazil Body Nostalgia” no Japão e o Katsuo dizia que ainda nos anos 1950 continuava essa relação Brasil-Europa, Europa-Brasil. Eu estava no Japão, olhei para a janela e pensei: o Brasil está aqui, a Europa está lá e o mundo é muito maior. A gente tem que esquecer essa história que a gente é ocidental, a gente não é ocidental, a gente é brasileiro, é uma mistura de ocidental, de africano, de índio. A gente é isso! A gente tem que estudar realmente os índios e os africanos. Enquanto a gente não estudar isso, a gente está perdendo tempo, bancando o bobo, com toda essa riqueza nas nossas mãos. Eu já sai dessa faz muito tempo, me libertei dessa coisa de achar que eu sou ocidental, eu sou brasileiro mesmo!