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MASP apresenta "Miguel Rio Branco: nada levarei qundo morrer"

O artista visual Miguel Rio Branco (Las Palmas, Espanha, 1946) apresenta sua segunda individual no MASP, quase 40 anos após "Negativo Sujo", de 1978. A exposição "Nada levarei qundo morrer", reúne uma seleção de 61 fotografias da famosa série 'Maciel', realizada no bairro homônimo, na região do Pelourinho, em Salvador, que o artista frequentou durante seis meses, em 1979. A mostra tem curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico do museu, Rodrigo Moura, curador-adjunto de arte brasileira, e assistência de Tomás Toledo, curador.

O título origina-se da sentença “Nada levarei qundo morrer, aqueles que mim deve cobrarei no inferno”, que ocupa o centro da composição de uma das obras. Escrita em vermelho, a frase contém lapsos de português e está em uma parede interna, amarelada e desgastada, e cuja palavra inferno quase desaparece em meio a manchas escuras. Os trabalhos seguintes trazem cenas de ambientes públicos e privados, como prostíbulos, bares, calçadas e quartos, de personagens que vivem e convivem em uma área estigmatizada e marginalizada pela prostituição, pobreza e criminalidade.

Na sequência, o visitante encontra imagens externas, de fachadas de casas e estabelecimentos comerciais, com paredes gastas pelo tempo, mas saturadas de cor, efeito que Rio Branco atinge ao fotografar em diapositivos. Em uma foto, crianças brincam na rua; em outras, homens jogam capoeira ou conversam entre si; e, em inúmeras, mulheres posam sozinhas, como se aguardassem supostos clientes. As marcas de ruína e sujeira, no entanto, são indícios não só do abandono, mas também da resistência daquelas pessoas a permanecerem no local.

A sexualidade permeia as imagens. É a partir da segunda parte,quando os cenários passam a ser os interiores de casas e prostíbulos, que o sexo se torna mais evidente, carnal e, por vezes, agressivo. Veem-se cenas com enquadramentos mais fechados, preenchidos por cicatrizes, partes de corpos nus e rostos que ora fitam a lente, ora se regozijam de prazer. Em planos mais abertos, mulheres nuas se oferecem ao espectador, muitas vezes posando em pé, perto de portas e corredores, ou em cima das camas, em quartos.

Segundo Tomás Toledo, curador assistente da mostra, “As imagens produzidas por Miguel Rio Branco no Maciel denunciam a realidade da região – exuberante e violenta – retratando essa sociedade em determinado período histórico. Mas elas estão longe de ser um registro meramente documental; são carregadas de dramaticidade, encenação, cores imperativas e contrastantes, permeadas por uma pele pictórica. Revelam as trocas que ocorreram entre o fotógrafo e os fotografados, expressadas na franqueza do olhar e na naturalidade dos corpos dos representados.”

Na exposição existe um embaralhamento entre os limites do público e do privado. O espaço coletivo da rua invade residências, prostíbulos e estabelecimentos comerciais, e vice-versa. Homens e mulheres entram e saem desses ambientes, em composições que confundem as noções de intimidade e coletividade. "Miguel Rio Branco: nada levarei qundo morrer", deixa evidente, assim, algumas das muitas expressões da sexualidade daquela comunidade, denunciando, a partir dela, marcas das desigualdades social e racial que sofrem populações marginalizadas no Brasil.

A individual vai até 1 de outubro. O MASP - Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand fica na Avenida Paulista, 1578 - São Paulo. Funcionamento: de terça a domingo, de 10h às 18h. Às quintas, de: 10h às 20h. Ingressos: R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia). Gratuidade às terças-feiras.