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Pivo recebe: 'As Obras e os Dias" – Marco Maria Zanin

A primeira edição do Pivô Recebe de 2017, programa dedicado a acolher projetos previamente formatados por artistas, curadores ou produtores culturais e que dividem afinidades conceituais com o programa da instituição, recebe a exposição “As obras e os dias” do artista italiano Marco Maria Zanin com curadoria de Jacopo Crivelli Visconti.

A exposição questiona como povos distintos se relacionam com a memória e com a passagem de tempo através de suas ruínas, no caso o artista elegeu especificamente a Itália e o Brasil. O primeiro âmbito, inclusive do ponto de vista biográfico, é a paisagem rural do Veneto, região do Norte da Itália de onde é originária a família do artista e onde radicam suas lembranças mais antigas, muitas delas ligadas a rituais e tradições milenários, nos quais as crenças, os saberes e as necessidades da lavoura estão indissoluvelmente entrelaçados. O segundo âmbito é o da cidade de São Paulo, onde Marco tem residido por largas temporadas, fascinado pela temporalidade totalmente distinta da megalópole, com sua vocação quase patológica para o futuro, que a torna, afinal de contas, refém de uma crônica falta de conhecimento de seu próprio passado. O que o artista testemunha e revela, ao se colocar conceitual e fisicamente no limiar entre esses dois universos, é o choque entre visões de mundo radicalmente distintas e aparentemente irreconciliáveis, mas que apesar de tudo, e principalmente apesar dos lugares comuns sobre a contemporaneidade, convivem.

Apropriando-se de detritos desses mundos, dois tipos tão distintos de ruínas, Zanin reproduz os escombros das demolições dos edifícios no centro de São Paulo em porcelana, como se fossem tesouros a serem preservados. Já os objetos pertencentes à antiga civilização rural do Vêneto, são cortados, e revelando formas que lembram objetos de culto das religiões afro-brasileiras. Nesses gestos de transformação da memória, Zanin investiga a possibilidade da ruína revelar a existência de outras temporalidades e narrativas sob a dominante, e propõe o exercício criar camadas históricas hipotéticas em detritos quaisquer.
Grande parte das obras em exposição foram produzidas pelo artista no contexto do programa de residência Pivô Pesquisa. No ano passado, Zanin passou um longo período no centro de São Paulo, em que tomou contato com a dinâmica e o contexto sócio-político da região que circunda o edifício Copan, que, apesar de abrigar uma população extremamente diversificada , não deixa de ser ele próprio uma espécie de ruína do pensamento moderno, em que camadas de tempo e de história se sobrepõem e se ressignificam.