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Rosângela Rennó lança o livro "‘Espírito de tudo"

A partir do desejo de provocar um mundo de conexões, lembranças embaralhadas e ressignificação de objetos e ideias, que a artista visual Rosângela Rennó concebeu as obras da exposição ‘Espírito de tudo’, que ficou em cartaz entre novembro de 2016 e janeiro de 2017, no Oi Futuro Flamengo.

Agora, estes trabalhos se transformam em uma publicação homônima que será lançada pela editora Cobogó. A edição bilíngue, com textos da curadora Evangelina Seiler, da própria artista e com citações de autores consagrados como Walter Benjamin, Marcel Proust e Ítalo Calvino, será lançada no dia 11 de abril, no próprio Oi Futuro, no Rio, e no dia 25 de abril na Galeria Vermelho, em São Paulo.

O caminho percorrido na exposição e, agora nas páginas do livro, obedece a uma lógica determinada pela artista em uma busca sensorial. “É importante ressaltar que eu não lanço um catálogo, mas um livro em que as obras ganham um tratamento especial por estarem em outro meio. O que na exposição era vídeo, por exemplo, agora apresenta imagens gráficas. É um desdobramento do trabalho”, explica Rosângela Rennó.

A ordem das obras na exposição foi mantida — Per fumum, Lanterna mágica, As águas viajantes, Turista transcendental, Realismo fantástico e Círculo mágico são os seis capítulos da publicação, que envolvem o leitor em uma jornada poética, por novas formas de olhar, compreender e reagir a variadas experiências. “Muita gente imagina que eu seja essencialmente benjaminiana pelo meu olhar para objetos antigos e fica surpresa por não ser nostálgica, mas sim provocativa e às vezes irônica”, observa a artista se referindo ao trabalho de Walter Benjamin sobre as causas e consequências da destruição da “aura” que envolve as obras de arte. “Meu trabalho dialoga com a história, a memória, a comunicabilidade e a perda da comunicabilidade”, acrescenta.

Obra que abre o livro, Per fumum apresenta a pesquisa da artista com resinas naturais, os incensos, e propõe uma reflexão sobre os odores com os quais o homem se relaciona da antiguidade até os dias de hoje – cada um com seu uso indicado e suas sensações próprias. O que este ou aquele aroma, esta ou aquela resina provoca, ao primeiro contato? Enquanto o olfato desperta sensações, Lanterna Mágica remete ao tempo da pré-imagem, entre fotografias trabalhadas à base de sais de prata e gelatina e projeções feitas com as tradicionais lanternas mágicas – projetores antigos, do final do século 19 e início do século 20. “Gosto de colocar um ruído na contemporaneidade para propor a reflexão. Quando uso um objeto anacrônico, como uma lanterna mágica, mas com funcionalidade, desperto o interesse, mudo a maneira como aquela obra vai ser absorvida”, reflete Rosângela Rennó.

As horas viajantes nasceu a partir da coleção da artista de vidros de perfume, com mais de 300 frascos cheios ou vazios. O sentir despertado pelas "imagens das essências" conduz à memória dos perfumes e de tudo que vem com ela. E mais uma vez o espectador é tocado pela viagem, magnetizado pelo ato de lembrar-se. No livro, o nome de todos os perfumes e suas datas de lançamento original estão catalogados.

A obra seguinte, Turista Transcendental, reúne textos da artista (na exposição acompanhados de vídeos) que documentam, de forma bastante peculiar, suas viagens a pontos tão distintos quanto as ilhas Reunião (no Oceano Índico, a leste de Madagascar) e Gomera (no arquipélago das Canárias), Teotihuacán (México), a cabeça da Estátua da Liberdade (Nova Iorque), o Salar do Uyuni (a maior planície de sal do mundo, na Bolívia), o estreito de Bósforo (em Istambul), a cidade mística de Allahabad (Índia), Lagos (Nigéria), Montevidéu (Uruguai) e a Chapada dos Veadeiros, no planalto central brasileiro. Os trabalhos Realismo Fantástico e Círculo mágico fecham o livro.

“Rosângela Rennó é uma artista consumada, inteira, completa. Ela é a arte em si, mais o discurso refinado em torno. Pensadora e artífice em uma só pessoa, manuseia a teoria e a prática em um só movimento, deixando ainda assim um imenso espaço para a sutileza, para a transição, nos intervalos de seu discurso”, define a curadora Evangelina Seiler. “Esse conjunto de obras promove um turbilhão de conexões e coerências, uma voragem de recorrências que adentram todos os âmbitos da arte e do mundo concreto e inclusive abstrato”.

Lançamentos:
No Rio de Janeiro, dia 11 de abril, às 18h30, no Oi Futuro Flamengo (Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo). Em São Paulo, dia 25 de abril, das 20h às 23h, na Galeria Vermelho (Rua Minas Gerais, 350 - Higienópolis, São Paulo).