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ArtRio Entrevista: Nomes e narrativas na obra de Joana Cesar

No meio do burburinho da Bhering, entre studios, lojas, galerias, oficinas, e o maquinário que restou da antiga fábrica de chocolates no bairro do Santo Crito, no Centro do Rio, fica o ateliê que Joana Cesar (Rio de Janeiro, 1974). No espaço, que ela divide com a artista Gabriela Maciel, também funciona a Tal | Tech Art Lab, um selo multimída colaborativo de arte nacional e estrangeira.

É véspera da exposição na Athena Contemporânea, e o espaço está tomado por enormes montes de papel que serviram de base para as obras inéditas: colagens em grandes dimensões sobre madeira. Joana, que é muito conhecida por suas mensagens cifradas nos muros da cidade, também utiliza a sobreposição de folhas, recortes, publicações, memórias e tintas para expressar suas narrativas. Não por acaso, o título da terceira individual da artista se chama “nome”.

Em um clima intimista, a artista contou como vai construindo essas histórias visuais, a partir de papéis que entram na obra não só como matéria e cor, mas também como significado. Como o trabalho funciona como um texto - sua fundamental relação com a escrita - apesar dele se apresentar de uma maneira plástica.

- Quando começou a sua relação com a colagem?
Ela sempre me acompanhou. Eu comecei a pintar na rua, há uns 15 anos atrás. Mas eu não sabia exatamente o que eu queria fazer. Eu achava muita coisa ruim nas intervenções urbanas e as coisas que eu achava boas, que me identificava, não eram exatamente coisas bonitas. Tinha a certeza que elas eram também perigosas. Então eu comecei dentro de um espaço que eu tinha – não exatamente um ateliê, era uma parede – e fiz testes do que eu achava que deveria ser graffitti. Comprei spray, comecei a produzir, mas tudo era muito ruim, dava muito errado. E eu cobria de branco para poder recomeçar e fazer outros testes. E um mês depois a coisa começou a melhorar. E alguns trechos do que eu fazia eu decidi preservar. Para isso, eu pegava um papel, colocava fita crepe em volta parava cola com água pra dar uma selada, esperava secar e pintava tudo de branco. Essa parede foi ficando então com umas “bolsas” e eu percebi após de dois anos fazendo isso, que ela estava com 19 cm de espessura, com camadas e mais camadas e até objetos, que depois passei a colocar lá. Comecei a trazer coisas da rua para a parede, pegar coisas de casa, e aquilo para mim começou a fazer muito mais sentidodo que a ideia do começo que era uma parede para testar o que eu iria fazer na rua. E tem tudo a ver com a escrita. A escrita é uma espécie de cortina, ela tem a mesma função que essa cobertura de papel. Na alteração da forma, que é a forma conhecida das letras, eu crio uma camada para o conteúdo. E acontece isso o tempo todo no trabalho da colagem.

- Como você começou a trabalhar com arte? Já era um desejo seu?
Eu escrevi um texto recentemente para um jornal falando exatamente sobre essa pergunta. No começo eu lutei um pouco contra essas “forças”. Eu vim de uma família muito tradicional, meus três irmãos fizeram suas faculdades, mestrados, noivaram, casaram, estão estabelecidos, “tem profissão”. E eu fiz cinco faculdades e não me formei em nada. Alguns parentes só sentiram orgulho de mim agora aos 40 anos. Então foi doído. O que eu fazia aos 18 anos para eles era considerado muito errado. Já ouvi “você é uma marginal”. Era crise na família por anos, porque eu vivia em uma situação de fronteira mesmo, com risco. Por ser mulher, por pintar na rua sozinha, no Rio de Janeiro. Mas tem muito também de como você se posiciona na rua, com o muro. Tem uma questão de atitude, do corpo mesmo. Isso eu fui aprendendo a duras porradas porque eu não conhecia nenhum grafiteiro, nenhum pixador. Eu não tinha a menor ideia de quem eram essas pessoas. Eu não fazia parte. Eu morei metade da minha vida em um sítio, depois eu morei na Suiça e morava na Barra quando comecei. Eu achava que pra pintar na rua você tinha que ir de madrugada escondido e eu passei um tempo fazendo isso. E depois eu entendi que não. Eu podia fazer de dia que não teria problema.

- E como você vê a compreensão da sua obra pelo grande público – que não conhece o código?
Para mim, o código só faz sentido se ele tem uma função. Eu inventei essa escrita com um propósito. E o propósito de qualquer código é esconder alguma coisa que não se pode falar. Voltando um pouco, eu sempre gostei muito de ler e escrever, essa história da palavra. Eu com 16 anos comecei a escrever, comprei uma máquina de datilografar IBM automática (até ela está ali na mesa!). Eu produzia muito, queria ser escritora e achava que minha vida seria essa. Mas eu não conseguia mostrar o que eu fazia. Em parte porque eu tinha medo de que fosse uma merda. Imagina, estar ali dedicada, achando que aquele é seu caminho, é a sua vida, e de repente você submete aquilo ao outro e ele fala pra você fazer outra coisa. Eu tinha pânico de perder aquilo que era tão importante para mim, então eu não mostrava. E esse não mostrar, junto com essa parede, junto com as minhas andanças e as minhas insegurançasde mulher, o desejo de enfrentar uma coisa masculina, opressora, tudo isso se misturou e eu fui fazer a minha escrita. Ela nem sempre esconde segredos, mas também a minha incapacidade de submeter o meu próprio texto à crítica do outro. Acho até que é mais do que isso. Claro que eu fico sempre procurando dar autenticidade ao código escrevendo temas que são temas importantes para não serem divididos, então entram as questões mesmo pessoais. Mas, antes disso tem eu não querer dividir a minha produção de literatura.

- Como se deu sua passagem das ruas para o mercado de arte: estar em uma galeria, em uma coleção, em um museu?
Foi um pouco difícil. Eu vejo que as pessoas querem consumir o que elas já conhecem. É como se tivessem dificuldade de gostar do que nunca viram. Não conhecem, não conseguem ou demora. É preciso ver mais vezes, ouvir mais vezes. Então quando eu fui convidada para ser representada pela galeria (Athena Contemporânea), eu falei que não ia fazer nenhuma escrita. Então a primeira exposição, há dois anos atrás foi de colagens. Aí entra uma questão minha muita séria com o suporte. Eu acho que na escolha do suporte os trabalhos começam. Então não acho possível mudar de suporte e repetir o trabalho. Não podia levar a escrita das ruas para a galeria. Eu tive que bater o pé: ali o suporte é madeira, estou fazendo esse trabalho em um ambiente fechado. Fui muito dura comigo.

- Essa série nova de colagens é uma continuação da primeira individual?
Eu acho que tem que ser. É como se fosse uma cadeira. Podem não estar visíveis os elos que me fizeram sair de uma determinado ponto e ir para outro. Às vezes isso não aparece para o público, mas isso tem que existir. O que o crítico de arte Fernando Cocchiarale chama de “fogos de artifício”. Estoura um ali e é lindo, depois outro em outro canto e lindo também, mas eu acho que o artista precisa ter uma coisa da construção. O trabalho é constituído através da reflexão do trabalho que foi feito e que caminha. É um caminho.

- Fale um pouco dessa série de obras inéditas.
Os trabalhos se parecem, cada vez mais para mim, como caixas. Eu nunca chamei de quadro ou de tela porque eu trato mais como objeto. Eu vejo que eu me aproximo da escultura. Tenho feito isso muito e até mesmo com a maneira de trabalhar que é usando materiais de escultura mesmo: balde, pano, rodo, trincha. E eu trabalho as laterais, o verso, para poder manusear este trabalho completamente. O nome da exposição é “Nome” e ele foi escolhido não por uma brincadeira com a palavra. É é engraçado que no fim eu fiquei achando bom isso de parecer uma brincadeira, porque me dá a chance de falar, antes de qualquer coisa, da minha ligação forte com a palavra. E que nunca foi uma ligação de brincadeira. Sempre foi muito verdadeira e muito séria pra minha vida. E a construção do trabalho é um tipo de narrativa que é mental (mas existe!) e textual. Apesar de ser uma narrativa escrita, eu não consigo ter completamente acesso a ela. É quase como se eu procurasse, dentro da minha cabeça, o nome de determinada palavra. É uma busca por “tornar palavra” um determinado fluxo de pensamentos. É algo que está ali, mas quando eu olho ele se esconde!

A exposição “Nome” tem curadoria de Ivair Reinaldim vai até o dia 13 de dezembro. A Athena Contemporânea fica no Shopping Cassino Atlântico (Av. Atlântica, 4.240, lojas 210 e 211). Funcionamento: de segunda à sexta, das 11 às 19 horas, e sábado, das 12h às 18h. Entrada gratuita.