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Entrevistas

“Histórias que eu quero contar” de Gabriela Machado

Conhecida por suas telas de grandes dimensões em incríveis tons cítricos, a artista plástica Gabriela Machado ampliou seu campo de trabalho. Ela apresenta, no anexo da Galeria Laura Marsiaj, em Ipanema, uma nova série de pinturas inspiradas em fotografias tiradas pelo celular. Com o título de “Histórias que eu quero contar”, as obras foram feitas à óleo, em pequeno formato, e com uma palheta de cores mais fechada.

Em uma conversa com a artista em seu ateliê, no Rio de Janeiro, falamos sobre esta nova individual e também sobre uma nova faceta de seu trabalho: esculturas em cerâmica que foram exibidas este ano em Lisboa, na Galeria 3+1, e depois, pela primeira vez no Brasil durante a terceira exposição da ArtRio, no estande da Galeria Celma Albuquerque (MG).

No ano passado, Gabriela Machado ocupou o Paço Imperial com pinturas e desenhos na mostra “Rever”. Ainda para 2013, a artista ocupa a vitrine do Oi Futuro do Flamengo com uma seqüência de fotografias, vídeos e uma instalação sonora.

Como começou esta série de trabalhos em pequeno formato?
É um caderno de anotações, como se fosse um diário. São telas pequenas, todas do mesmo tamanho. Quando eu viajo, é um formato que eu posso pintar no local. E que também vêm das minhas fotos no Instagram. Eu fui fazer um trabalho em Lisboa, há dois anos atrás, que não tinha um projeto a priori. Então eu fui pra rua filmar e ver o que vinha pra mim, o que eu ia fazer. Aí eu comecei a filmar e fiquei louca com a luz da cidade, os varais, os gatos na varanda. E eu não quis ter aquele material só em movimento. Aí seriam fotos e usei o telefone que já está no bolso e passei a publicar no Instagram. E é uma roda viva, você entra em uma rede. Aí eu comecei a ver que as fotos que eu fazia tinham a pegada da pintura. Elas estavam me ensinando a pintura. Eu comecei a ver uma luz nessas imagens, de pintura. Então criei um chassi condizente com essa escala, nesse formato, e comecei a aprender a pintar com essa luz. Meu trabalho é todo grande, então aprendi a trazer isso para uma escala pequena. Então tem dois anos que comecei essas telinhas e fui fazendo, como o meu diário.

Antes você não tinha essa relação de se basear em uma imagem fotográfica para pintar?
Nunca tive. Nunca pintei a cena, mas algo que vem de dentro. E a partir daí comecei a pintar, pois vi que estava enquadrando a cena como pintura. Comecei então a fazer essas pinturinhas. Algumas ficam iguais às fotos e outras já vão para outras histórias. Então virou um diário e eu tenho 40 trabalhinhos desses até agora, o que pode continuar.

Sua pintura, em grandes dimensões, é extremamente corporal. Você caminha sobre a tela. Como foi não ter mais essa ação tão intensa?
Isso foi muito de, eu ter que viajar, e não ter o mesmo espaço. Mudou a minha forma de pintar. Quando se sai do seu habitat e vai pra outro ateliê pequeno. Ou não tem ateliê e eu vou pra rua. Então pensei em mudar a escala desse trabalho, que eu posso fazer em qualquer lugar. Eu sento, pinto e acabou. É um trabalho que não precisa do meu corpo, mas do meu pulso. Não deixa de ser um entendimento da escala – porque pelas fotos pequenininhas eu comecei a ver uma outra escala, mas tive o a priori das imagens. Eu já tinha a cena ali, o ponto de partida, cortado.

Nas telas grandes, as cores são bastante intensas. Nesses trabalhos menores as cores são mais brandas?
Sim, brandas como nas fotos e feitas em óleo. Na tinta óleo eu não consigo essas cores cítricas, ela é mais tradicional. Tem essa nuvem na frente, que eu queria ter. A pintura fica com uma pegada mais tradicional. E tem essa história da luz. É não só dar a luz pela cor, mas pela cena. Então veio toda uma nova informação. E isso com as minhas esculturas tem tudo a ver, pois elas são tradicionais também. Essa coisa do Rodin de ver a mão, o gesto. E essas pinturinhas estão bem casadas com esse trabalho escultórico de agora. E engraçado que eu fui fazer as pinturas grandes para a ArtRio e elas já saíram mais geometrizadas, não tão florais. Elas já saíram assim, blocos de cor. Porque ali eu dei a luz com a cor cítrica. Mas já vinha com um outro olhar.

E como foi a resposta do público, durante a ArtRio, a essas esculturas?
Foi a primeira vez que elas foram mostradas no Brasil. Eu já tinha exibido as esculturas em Lisboa, mas só as pequenas. E elas saíram do forno três dias antes e foram para a feira. Nem tive tempo de conviver com elas. Mas acho que foi muito interessante, eu tive um retorno muito legal das pessoas verem que não sou uma artista engessada. Eu não vivo de um trabalho só e fui para outros suportes. O que acho que é uma coragem de ver o que pode ser feito em outras coisas. Eu quero sempre ter frescor no meu trabalho. É o querer fazer. Estou investigando e aprendendo. E eu acho que as pessoas perceberam isso.